Autor: Marcus Fontes
A liderança tem sido objeto de estudo e debates no âmbito internacional enquanto um fenômeno inerente aos processos de transformação social e um aspecto entrelaçado com as bases de estruturação e organização da sociedade. Considerando-se as várias dimensões desse domínio, nas últimas décadas, diversas linhas de investigação vêm debruçando-se sobre a análise dessa prática nas ciências sociais, na política e na educação. Esses estudos têm buscado compreender como a liderança vem se reorganizando nas relações sociais na medida que as transformações na sociedade se dão ao longo da trajetória histórica, além de dedicarem especial atenção ao papel da liderança e suas posições dentro das organizações. Outro tema subjacente a esse domínio tem sido a compreensão de como a liderança possibilita que as comunidades liderem os processos de mudanças (Redondo-Sama, 2016, pg. 74).
A respeito das transformações sociais, Aubert et al (2016) afirmam:

“Os velhos padrões e normas que costumavam orientar nossa vida na sociedade industrial estão perdendo sua legitimidade na sociedade atual. A revolução tecnológica da sociedade da informação, o fenômeno social da globalização, o aumento dos riscos e das opções, entre outras características, fazem com que as pessoas precisem cada vez mais se comunicar e dialogar para tomar decisões em relação ao presente e ao futuro, cheio de opções que são produto de novos valores, normas sociais e intercâmbios culturais”. (AUBERT et al; 2016, pg. 28)

Nessa linha de estudos, Redondo-Sama (2016), em seu artigo “Liderança e participação comunitária: uma revisão da literatura”, faz uma importante contribuição nesse campo de pesquisa. Em seu trabalho, ela expõe um conjunto de teóricos que desenvolveram seus estudos fazendo uma ligação entre a liderança e o papel das comunidades na melhoria nos processos de transformação social. Entre os artigos evidenciados no trabalho da autora, são citados temas como: liderança em comunidades profissionais e comunidades de prática, liderança em relação à participação e envolvimento familiar e liderança em relação a outros membros da comunidade.
Ainda sobre isso, cita Redondo-Sama (2016):
“Nas últimas décadas, um conjunto de pesquisas estudaram a ligação da liderança com o papel das comunidades na melhoraria das transformações sociais.                    Ressonando com essa abordagem, liderança transformacional (Burns, 1978), liderança distribuída (Gronn, 2002; Spillane, Halverson & Diamond, 2004),                      não- eu, liderança de professores posicionais (Frost, 2014), liderança compartilhada (Lambert, 2002) ou liderança dialógica (Padros & Flecha, 2014)                              desempenharam um papel de liderança em partes muito diversas do mundo” (REDONDO-SAMA; 2016, pg. 73).
Entre as abordagens apontadas por Redondo-Sama, em sua revisão teórica, está a Liderança Dialógica desenvolvida por Padros e Flecha (2014 apud Redondo-Sema, 2016, pg. 84). Essa conceituação considera “o processo através do qual as práticas de liderança de todos os membros da comunidade educacional são criadas, desenvolvidas e consolidadas, incluindo professores, alunos, famílias, pessoal não docente, voluntários e qualquer outro membro da comunidade”.
A escola da atualidade está presente em um contexto social e cultural diferente do vivenciado pela escola que herdamos do século XIX. O advento das novas tecnologias de comunicação e da informação, e o processo de reorganização da produção global impactam a forma na qual o mundo vem se organizando atualmente e a constituição das relações sociais. Esse cenário de transformações, do final do século XX, gera para as diversas estancias da sociedade novos desafios, demandando uma revisão de suas bases e um incremento de novas competências para a convivência em comunidade.
Nesse contexto de crise e busca de alternativas de soluções, a Comunidade de Aprendizagem surge como proposta educativa que promove transformação educacional, social e cultural na escola. Apoiada em princípios e atuações que têm como base a queda do autoritarismo, a promoção da democratização escolar e uma maior participação efetiva da comunidade nas decisões educativas da escola, a Comunidade de Aprendizagem busca promover espaços escolares mais igualitários e dialógicos.
Tendo em vista o aqui exposto, esse trabalho tem como objetivo propor uma reflexão acerca do papel do diretor escolar na prática da gestão democrática e dos processos decisórios descentralizados de uma Comunidade de Aprendizagem, como também propor estratégias para a prática da liderança dialógica como caminho para a participação comunitária nas decisões das prioridades da escola, em específico a realização das comissões mistas.
Um segundo objetivo desse estudo é propor um quadro de referência para gestores de uma Comunidade de Aprendizagem, composto por um conjunto de competências que compõem um perfil aderente a uma liderança igualitária e dialógica.
DESENVOLVIMENTO
Para responder aos objetivos descritos na seção anterior, esse trabalho fará uma revisão bibliográfica calcada nos referencias teóricos do Comunidade de Aprendizagem, para embasar o diálogo em torno da participação da família e da comunidade nas decisões educacionais da vida escolar. Esse estudo também utilizará as contribuições teóricas de Heloísa Lück (2009; 2012) como referência na discussão sobre a gestão democrática e na proposição de um quadro com algumas principais competências esperadas de um gestor escolar de uma Comunidade de Aprendizagem. Inicialmente, o contexto da pesquisa será apresentado de modo a descrever a transformação da escola Municipal Sebastião José da Silva, localizada na zona urbana da cidade de Belo Jardim – PE, em uma Comunidade de Aprendizagem.
Em 2016, o Instituto Conceição Moura, organização de investimento social privado do Grupo Moura, que atua em Belo Jardim – PE no apoio à educação do município, no âmbito de sua parceria com o Instituto Natura, viabilizou a apresentação da proposta do Comunidade de Aprendizagem à Secretaria Municipal de Educação. Os dirigentes da Secretaria acolheram a ideia e lançaram para a rede um convite de apresentação do modelo educativo e seus princípios para todos os gestores escolares. Nesse primeiro momento de apresentação geral 15 gestores escolares compareceram para escutar a proposta do Natura. Com base nesse primeiro encontro, a Secretaria Municipal de Educação sinalizou a indicação da participação de 03 escolas públicas: Manoel Teodoro (escola situada em zona rural – localidade da Serra dos Vento), Júlio Magalhães (escola da zona urbana, com histórico de boas notas do IDEB) e a Sebastião José da Silva (escola também localizada na zona urbana, em um território adensado populacionalmente e em condição de vulnerabilidade social).
Os 03 gestores dessas escolas levaram à frente a proposta de apresentar aos seus professores, funcionários e pais dos alunos, o Comunidade de Aprendizagem. Sendo assim, foram organizados 4 momentos formativos para apresentação dos referencias teóricos e princípios do Comunidade de Aprendizagem às escolas, como também promover momentos de diálogo com os familiares e a comunidade. O resultado dessa interação foi positivo, e a proposta do Comunidade de Aprendizagem foi bem acolhida por parte dos familiares. No entanto, essa mesma receptividade não aconteceu com o público de professores da escola Manoel Teodoro e Júlio Magalhães. Esses tiveram uma postura contrária, rejeitando a possibilidade de adesão ao projeto. Os professores justificaram sua rejeição, argumentando que “os pais não assumiriam a posição de voluntariado como proposto, e que o Comunidade seria um projeto a mais, trazendo mais tarefas para a grade de obrigações do professor”. Entre as escolas que participaram dessa etapa de sensibilização, apenas a Escola Municipal Sebastião José da Silva teve total adesão ao Comunidade de Aprendizagem, e, portanto, foi a escola piloto da rede.
O PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DA ESCOLA MUNICIPAL SEBASTIÃO JOSÉ DA SILVA
A escola Sebastião José da Silva está localizada no bairro na Cohab III, um território adensado populacionalmente e inserido em contexto de vulnerabilidade social. Ela possui um quadro de 420 alunos e atua com os anos iniciais do ensino fundamental. Além disso, possui estudantes que participam do programa de correção de fluxo.
O processo de transformação da Sebastião José iniciou com a adesão da escola a proposta do Comunidade de Aprendizagem e prosseguiu com a realização das etapas de implementação conforme a metodologia. A escola convidou toda a comunidade para a realização da etapa dos sonhos1. Nessa fase mobilizadora, a escola construiu uma representação de uma “árvore dos sonhos”, para reunir em sua copa o registro de como os professores, familiares, estudantes e demais integrantes da comunidade sonham a escola que querem. Em seguida, em reunião com familiares, professores e equipe gestora da escola, os sonhos foram lidos, analisados, separados por categorias e organizados em sonhos de curto, médio e longo prazo, de acordo com as prioridades da escola. A partir desse primeiro passo, foi dado início a primeira comissão mista2 que levou a frente alguns dos sonhos que a curto prazo poderiam ser realizados. Em paralelo a isso, algumas outras Atuações Educativas de Êxito3 foram implementadas na escola: os grupos interativos, as tertúlias literárias, tertúlias pedagógicas e a formação de familiares.
Ao longo de 2016 a escola avançou no seu processo de transformação4, de forma coesa. A escola teve uma forte adesão dos familiares e comunidade que participavam das reuniões abertas com assiduidade.
Devido as mudanças que ocorreram na gestão do município ao longo do ano de 2017, a escola Sebastião José teve sua equipe gestora modificada, o que impactou o andamento da escola. A nova equipe que assumiu a gestão não conhecia o modelo educativo e de transformação social do Comunidade de Aprendizagem, e encontra-se atualmente no processo de apropriação dos princípios da Aprendizagem Dialógica5 para dar continuidade ao legado construído nos dois anos de implementação.
Atualmente, a escola Sebastião José continua sendo a única escola que segue com a proposta de Comunidade de Aprendizagem em Belo Jardim – PE.
A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA E O PAPEL DO GESTOR DE UMA COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM
As mudanças no processo de interação social do último século têm provocado transformações em diferentes âmbitos da sociedade, gerando uma crise de antigos paradigmas. No campo da Educação, esse reflexo não é diferente, o que tem gerado novos desafios e aprendizados para a escola e para aqueles que a compõe.
Sobre esse tema, aponta Lück (2009):

“Novos desafios e exigências são apresentados à escola, que recebe o estatuto legal de formar cidadãos com capacidade de não só enfrentar esses desafios, mas também de superá-los. Como consequência, para trabalhar em educação, de modo a atender essas demandas, torna-se imprescindível que se conheça a realidade e que se tenha as competências necessárias para realizar nos contextos educacionais os ajustes e mudanças de acordo com as necessidades e demandas emergentes no contexto da realidade externa e no interior da escola” (Lück, 2009, p. 16).

A escola enquanto espaço que promove transformação social, precisa garantir além da formação e aprendizagem dos seus alunos, o cumprimento de sua função social. Essa dimensão engloba a participação efetiva e ativa de todos os atores envolvidos nesse processo de formação humana e cidadã, principalmente a comunidade.
O INCLUD-ED6. Strategies for inclusion and social cohesion in Europe from education (2006-2011), projeto de pesquisa desenvolvido em diversos países da Europa e coordenado pelo Centro de Investigação em Teorias e Práticas de Superação de Desigualdade (CREA) da Universidade de Barcelona, realizou 22 estudos de casos específicos e 6 estudos de casos longitudinais, acompanhando a evolução das escolas envolvidas nos 4 anos do projeto. Ao longo desse período, a pesquisa identificou as práticas que efetivamente aumentam o desempenho acadêmico dos estudantes e melhora a convivência e as atitudes solidárias no âmbito escolar. O estudo constatou que as práticas que geram maior aprendizagem são aquelas que trabalham com grupos heterogêneos e participação educativa da comunidade. Outro ponto também identificado pelo o estudo refere-se a alguns tipos bem sucedidos de participação dos familiares e da comunidade na escola. Entre os 5 modelos de participação analisados pela pesquisa (informativa, consultiva, decisiva, avaliativa e educativa), as participações educativas, avaliativas e decisórias são as interações que possuem maior probabilidade de êxito de participação das famílias e comunidade. No entanto, a participação educativa da comunidade foi comprovadamente o modelo que promoveu maiores e melhores resultados de aprendizado das crianças (INSTITUTO NATURA, 2017, p.10).
Apesar da existência de inúmeras evidências científicas que comprovam que a integração da escola com a comunidade e com as famílias tem sido identificada como um fator importantíssimo para o bom funcionamento escolar e qualidade de seu processo educacional, a adesão para essa prática no cotidiano é um grande desafio. Entre os enfrentamentos encontrados estão a falta de clareza do papel da comunidade na função ativa dentro do espaço escolar, além da sua própria presença abalar as velhas estruturas do autoritarismo e centralização de comando da gestão.
Portanto, cabe ao gestor escolar ser o agente promotor do entendimento do papel de todos em relação à educação e a função social da escola. Mas o que acontece muitas vezes é um entrave exatamente nesse dimensionamento das corresponsabilidades (Lück, 2009, p. 18).
O Comunidade de Aprendizagem surge no âmbito educacional e social como uma proposta de superação das desigualdades sociais e melhoria da aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes, por meio da implementação de Atuações Educativas de Êxito e a participação ativa da comunidade e da família na vida educativa da escola.
Portanto, os gestores de escolas que aderem a proposta do Comunidade de Aprendizagem, precisam possuir ou desenvolver um perfil aderente aos princípios que fundamentam esse modelo educacional, já que suas ações serão limitadas enquanto forem limitadas suas competências e compreensão sobre esse projeto.
No âmbito da descentralização das decisões da escola e da democratização da gestão, um ponto fundamental a ser analisado é a autoridade. Acerca desse assunto, Mello aponta que junto com as mudanças que surgiram com a sociedade da informação e a cultura do globalismo, está a crise das autoridades tradicionais, pois as relações sociais não se baseiam mais na hierarquia sustentada na autoridade. Ao contrário disso, houve na sociedade da informação um giro dialógico7 nas relações e instituições. (Mello, 2014, p.37).
Ainda sobre as relações autoritárias, cita Mello (2014):
“da mesma forma, essas mudanças atingem a escola e, diretamente, a sala de aula. O professor e a professora também não representam mais a autoridade                      incondicional que representavam há algumas décadas, e as crianças e jovens, enquanto estudantes, também querem ter poder decisório, não aceitando tudo o              que a professora ou o professor lhes diz” (Mello, 2014, p. 37).
O diálogo como elemento para referenciar as relações e as ações no Comunidade de Aprendizagem, incorpora o poder da argumentação como aspecto fundamental nas tomadas de decisões, e na busca por valores como “solidariedade, a justiça e a igualdade, valores positivos e mais desejados por todos do que o autoritarismo, o poder indiscutível e a discriminação” (Mello, 2014, p. 40).
Com o giro dialógico presente nas relações, os espaços sociais buscam privilegiar muito mais a comunicação, a decisão participativa e o respeito à diversidade. No contexto escolar, para que isso seja possível, o processo comunicativo precisa estar a serviço da transformação intencionada e dialogada da escola, entre profissionais, estudantes, familiares e comunidade do entorno (Mello, 2014, p. 60).
Para Lück (2012), a comunicação da gestão escolar precisa contemplar reciprocidade, circularidade, interatividade, diálogo e retroalimentação (2012, pg. 117). Na visão da autora, só a partir dessas características presentes na comunicação, é possível se ter uma construção consciente de significados necessária para o posicionamento como sujeito diante das situações vivenciadas.
Tendo em vista essas reflexões, fica evidente a importância da figura do gestor escolar nos processos de transformação do Comunidade de Aprendizagem, e de que o seu perfil profissional precisa caminhar junto com uma série de competências e atitudes que dialoguem com o modelo educativo dialógico, democrático e igualitário.
Mello (2014), no último capítulo do seu livro “Comunidade de Aprendizagem – outra escola é possível”, levanta uma indagação acerca do processo de transformação e os agentes educativos envolvidos nesse contexto:
“a escola, a comunidade e os familiares se encontram preparados para a realização deste trabalho conjunto, de modo a aumentar as condições de igualdade na               relação entre elas por meio do diálogo. Estamos prontos para esse desafio? ” (Mello, 2014, p. 150).
Essa indagação de Mello (2014) pode ser dirigida para os gestores escolares: os diretores escolares estão preparados para os desafios do processo de transformação do Comunidade de Aprendizagem? Estão prontos para exercer uma gestão mais democrática, igualitária e dialógica?
Claro que a resposta a essa pergunta será diferente em contextos escolares distintos, mas sem dúvida para estar pronto para esse processo, algumas competências comuns precisam fazer parte do perfil do gestor para que essa liderança alcance os horizontes dos princípios do Comunidade de Aprendizagem.
Nesse sentido, o gestor escolar precisa ser um mobilizador social, já que o seu papel passa pelo o exercício de influenciar a atuação de pessoas e estruturar recursos e esforços para o alcance de objetivos educacionais. É inerente a essa posição, no âmbito da gestão democrática, o aspecto da liderança compartilhada, tanto na comunidade interna como externa da escola.
Sobre esse tema, disserta Lück (2009):
“A liderança compartilhada e co-liderança exercidas na escola, é importante que se destaque, será tanto mais efetiva quanto mais disseminada for entre as                      pessoas que participam da comunidade escolar, pelo exercício da liderança compartilhada (entre todos os membros da comunidade escolar) e da co-liderança              (entre a equipe de gestão escolar)” (Lück, 2009, p. 78).
O papel do gestor do Comunidade de Aprendizagem, nas suas práticas de liderança compartilhada e gestão democrática, é assegurar a participação educativa da comunidade nas tomadas de decisão da escola, além de espaços formativos e de aprendizagem. Cabe a ele também promover o diálogo igualitário, e fomentar a criação das Comissões Mistas (INSTITUTO NATURA, 2017, p.13; 23).
De acordo com o INSTITUTO NATURA (2017):
“O objetivo das Comissões Mistas e das Assembleias é promover propostas e mudanças mediante debates, consensos e diversidade de opiniões. Essas atuações são pautadas no princípio da inteligência cultural, que pressupõe a interação de pessoas de diferentes culturas, através de meios verbais e não verbais (ações comunicativas), com a finalidade de construir entendimentos no âmbito cognitivo, estético e afetivo”. (INSTITUTO NATURA, 2017, p. 46).
Ainda sobre esse tema da descentralização do poder decisório nas escolas, Mello (2014) ressalta:
“o que geralmente se pode frequentemente ver nas escolas é uma gestão que, por consequência das pressões e limitações sob as quais age, acaba por atuar apenas no sentido de ordenar, controlar e punir, numa perspectiva estritamente de administração técnico-burocrática. A própria ordenação do espaço e do tempo na escola, a flexibilidade ou a rigidez do cenário e avaliação constantes demonstram isso” (Mello, 2014, p.116).

As escolas transformadas, com a implementação da participação da comunidade em seu cotidiano, em especial as Comissões Mistas, promovem essa possibilidade de deslocar da figura do gestor o controle central das decisões educativas da escola, o que viabiliza uma maior democratização, mesmo que o diretor escolar não tenha em suas práticas essa cultura inclusiva de compartilhar as decisões.
Portanto, é fundamental que as Comissões Mistas recebam o apoio da Secretaria Educação, e demais instâncias da educação, para compreender os processos de escolha da escola e apoia-la nas prioridades definidas nas Comissões.
Sobre a competência de liderança compartilhada, cita Lück (2009):
“Essa competência passa pelo enfrentamento de questões de relacionamento interpessoal e comunicação, assim como questões relacionadas ao exercício de poder e valores. Essa gestão trata-se de uma dimensão abrangente e complexa, de caráter eminentemente político, uma vez que dá poder a pessoas, poder esse que é legítimo no contexto educacional, na medida em que é promovido tendo por orientação a contribuição para a melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem e formação dos alunos, com a participação dos pais, da comunidade interna e externa da escola” (Lück, 2009, p. 80).

Com isso posto, é possível se pensar quais competências tem forte aderência aos princípios do Comunidade de Aprendizagem, e a partir desse ponto, desenhar um quadro referencial para gestores escolares.
Para propor um quadro de referência com as principais competências esperadas para o um gestor de uma Comunidade de Aprendizagem, esse trabalho utilizará como base as competências apontadas por Lück (2009), em sua obra “Dimensões da Gestão Escolar”.
Lück (2009) organiza as competências orientadas para os diretores escolares da seguinte forma:
 Competências de fundamentação da educação e da gestão escolar;
 Competências de planejamento e organização do trabalho escolar;
 Competências de monitoramento de processos educacionais e avaliação institucional;
 Competências de gestão de resultados educacionais
 Competências de gestão democrática e participativa
 Competências de gestão de pessoas na escola
 Competências de gestão pedagógica
 Competências de gestão administrativa na escola
 Competências da gestão da cultura organizacional da escola
 Competências de gestão do cotidiano escolar
Considerando o objeto de estudo desse trabalho, será realizado um recorte da proposta por Lück (2009), privilegiando as competências orientadas para a gestão democrática e participativa, pois essas dialogam perfeitamente com os princípios e prerrogativas do Comunidade de Aprendizagem. No entanto, recomenda-se que as demais competências apontadas pela autora possam ser estudadas e incorporadas ao perfil de gestor do Comunidade de Aprendizagem, por possuírem forte aderência ao compromisso com a educação dialógica e igualitária proposta pelo projeto.
A proposta reunida de nove competências para uma gestão democrática e participativa, apontadas por Lück (2009), segue Quadros 1 abaixo:

Competências de gestão democrática e participativa

1. Lidera e garante a atuação democrática efetiva e participativa do Conselho Escolar ou órgão colegiado semelhante, do Conselho de Classe, do Grêmio Estudantil e de outros colegiados escolares.
2. Equilibra e integra as interfaces e diferentes áreas de ação da escola e a interação entre as pessoas, em torno de um ideário educacional comum, visão, missão e valores da escola.
3. Lidera a atuação integrada e cooperativa de todos os participantes da escola, na promoção de um ambiente educativo e de aprendizagem, orientado por elevadas expectativas, estabelecidas coletivamente e amplamente compartilhadas.
4. Demonstra interesse genuíno pela atuação dos professores, dos funcionários e dos alunos da escola, orientando o seu trabalho em equipe, incentivando o compartilhamento de experiências e agregando resultados coletivos.
5. Estimula participantes de todos os segmentos da escola a envolverem-se na realização dos projetos escolares, melhoria da escola e promoção da aprendizagem e formação dos alunos, como uma causa comum a todos, de modo a integrarem-se no conjunto do trabalho realizado.
6. Estimula e orienta a participação dos membros mais apáticos e distantes, levando-os a apresentar suas contribuições e interesses para o desenvolvimento conjunto e do seu próprio desenvolvimento.
7. Mantém-se a par das questões da comunidade escolar e interpreta construtivamente seus processos sociais, orientando o seu melhor encaminhamento.
8. Promove práticas de co-liderança, compartilhando responsabilidades e espaços de ação entre os participantes da comunidade escolar, como condição para a promoção da gestão compartilhada e da construção da identidade da escola.
9. Promove a articulação e integração entre escola e comunidade próxima, com o apoio e participação dos colegiados escolares, mediante a realização de atividades de caráter pedagógico, científico, social, cultural e esportivo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O processo de transformação da Sebastião José e os bons resultados que a gestão daquela escola imprimiu no legado do Comunidade de Aprendizagem na cidade de Belo Jardim – PE, como também as discussões levantadas por esse estudo acerca da gestão democrática, são referências para se pensar o perfil ideal do gestor escolar do Comunidade de Aprendizagem.
Mas isso não significa que o agente educador que não possua esse conjunto de competências gerencias, não possa embarcar no processo de liderança de uma escola orientada para o Comunidade.
Sendo assim, as competências ainda não desenvolvidas ou em processo de desenvolvimento podem ser estimuladas e fortalecidas por meio da criação de uma “capacidade conceitual” por parte do gestor, que lhe dará base para realizar as ações no âmbito escolar. Essa apropriação da base conceitual pode se dar por meio das leituras dos referenciais teóricos da Aprendizagem Dialógica e do Comunidade de Aprendizagem, além participação do processo de Certificação promovido pelo Instituto Natura ou mesmo por meio da realização dos módulos do Comunidade de Aprendizagem pela plataforma EAD.
Outra maneira de apreender as práticas e por tanto, desenvolver competência aderentes a proposta do Comunidade de Aprendizagem, é participando efetivamente das Atuações Educativas de Êxito, em especial aquelas que envolvem a participação educativa da comunidade.
BIBLIOGRAFIA
AUBERT, Adriana, et al. Aprendizagem Dialógica na Sociedade da Informação. São Carlos, EdUFSCar, 2016.
CENTRO ESPECIAL DE INVESTIGACIÓN EM TEORÍAS Y PRÁCTICAS QUE SUPERAN DESIGUALDADES (CREA). (2006 – 2011). Includ-ED. Strategies for inclusion and social cohesion in Europe from education. 028603-2. Sixth Framework Programme. Priority 7: citizens and governance in a knowledge-based society. European Commission.
REDONDO-SAMA, Gisela. Leadership & Community Participation: A Literature Review. Internacional and Multidisciplinary Journal of Social Sciences. University of Cambridge, United Kingdom, 5(1), 71-92, March/July 2016.
INSTITUTO NATURA. Caderno de Formação de Comunidade de Aprendizagem. São Paulo, 2017.
LÜCK, Heloisa. Dimensão de gestão escolar e suas competências. Curitiba: Editora Positivo, 2009.
____________ . Liderança em gestão escolar. 8. Ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Cap 3).
MELLO, Roseli Rodrigues; BRAGA, Fabiana Marini; GABASSA, Vanessa. Comunidades de Aprendizagem: outra escola é possível. São Carlos: EDUFSCAR, 2014.
 
Notas de Rodapé:
1 Após a comunidade aderir ao processo de transformação, inicia-se a etapa dos sonhos. Essa fase acontece com base na pergunta: que escola queremos para que todos aprendam mais e melhore a convivência? Estudantes, professores e demais integrantes da comunidade escolar são convidados a registrar seus desejos e expressar como sonham a sua escola.
2 As Comissões Mistas é uma organização participativa heterogênea formada por professores, familiares, estudantes, direção, demais membros da escola e associações locais de tomadas de decisão. O seu objetivo é promover condições democráticas de escolha de prioridades da escola e tomadas de decisão
3 As Atuação Educativas de Êxito são práticas educativas investigadas pela pesquisa INCLUD-ED (2006-2011) e comprovadas cientificamente, que quando aplicadas em qualquer contexto promovem o aumento do desempenho acadêmico dos estudantes, a melhora da convivência e das atitudes solidárias.
4 As escolas que aderem a proposta do Comunidade de Aprendizagem passam por um conjunto de etapas de transformação, a partir na escola sonhada pelos professores, estudantes, familiares de demais integrantes da comunidade escolar. As etapas de transformação são: sensibilização, tomada e decisão, sonho, seleção de prioridades e planejamento.
5 Os princípios da Aprendizagem Dialógica são: Diálogo Igualitário; Inteligência Cultural; Transformação; Criação de Sentido; Solidariedade; Dimensão Instrumental; Igualdade de Diferenças.
6 http://www.comunidadedeaprendizagem.com/uploads/materials/12/740922c2359d3ca752de853bbb798930.pdf
7 O giro dialógico refere-se a queda dos padrões autoritários presentes nas relações patriarcais, em contraposição a valorização das relações sociais baseadas no diálogo e no poder argumentativo nos processos reflexivos e decisórios, em suas diversas instâncias.
 

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